O acervo como projeto de extensão

15/05/2012 14:46

©iStockphoto.com/Roger Lecuyer

 

Devido à grande importância assumida pela imagem nas últimas décadas – o que, para alguns teóricos pós-modernos, é indício de uma civilização visual – o filme parece gozar de prerrogativas já ocupadas pela literatura em outros tempos. O cinema, em termos de formatação do imaginário e preferência de entretenimento, perfaz as funções atribuídas anteriormente ao romance durante os séculos XVIII e XIX. A narrativa cinematográfica, no entanto, é tributária da literatura porque absorveu o que pôde de seus conteúdos e formas de expressão, adaptando-os ao seu meio, não sem provocar, também, impacto na criação literária. Não é um efeito de choque tal qual aconteceu com a pintura após a invenção da fotografia – responsável por uma reavaliação das premissas de produção –, mas, ainda assim, é suficientemente significativo para estabelecer uma mútua interação criativa.

Muito embora o cinema seja uma forma de arte colaborativa, isto é, expressão artística do qual o produto depende do trabalho de um grupo de indivíduos, muitas vezes é apenas o nome do diretor que é agraciado pelo grande público e, até mesmo, pela crítica especializada. A sobreposição do diretor sobre o autor é uma herança histórica. Nas manifestações teatrais do século XX, teóricos como Constantin Stanislavski defenderam a soberania da montagem do diretor em relação ao texto do dramaturgo, contrariando a tendência textocêntrica que dominava o cenário até então.

A compreensão de que um texto teatral é também uma obra aberta – sujeita a um número possível de leituras e intepretações múltiplas – decretou, infelizmente, a morte do autor. Mas não como gostaria Roland Barthes. A “marca de autoria” do diretor, ou seja, sua interpretação cênica para o texto tornou-se mais importante que o texto produzido por um sujeito dramaturgo. Tal efeito de soterramento do escritor em função do intérprete audiovisual foi transferido para o cinema. Efeito persistente entre o grande público, apesar da existência de premiações para contemplar os melhores roteiros produzidos.

Esse reconhecimento – ainda mínimo – dos roteiristas deve-se a uma luta dos profissionais pela regulamentação do trabalho que acontece há décadas, envolvendo assuntos sindicais e de direitos autorais. Uma das conquistas nas reivindicações dos roteiristas é um direito contratual: a aparição do nome do roteirista nos créditos do filme com importância equivalente à do diretor, do produtor e dos atores principais.

O Curso de Cinema da Universidade Federal de Santa Catarina, possuindo como uma das ênfases curriculares a roteirização, lança-se em um trabalho de valorização da imagem do roteirista, este moderno contador de histórias, para evidenciar que a produção audiovisual não é um dos principais produtos de criação dos formandos, ainda que seja o objetivo final. Todos os projetos, entretanto, começam por textos literários, argumentos e roteiros.

Uma forma de dar destaque aos produtos textuais é constituir um acervo dos materiais produzidos nas disciplinas e nos trabalhos de conclusão de curso, partindo de uma condição – a fricção contínua e profícua entre texto e tela, a união da imagem por meio do texto – que se abrirá a objetivos múltiplos, representativos de necessidades criativas e institucionais.

 

Marcio Markendorf,
responsável pelo projeto